quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ordenação para acesso a enriquecimento ambiental

11:18

Juliana Damasceno e Gelson Genaro
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto
Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia

Enriquecer o ambiente de animais cativos é de fundamental importância para a manutenção do bem-estar físico e psicológico dos mesmos. Mediante aplicação de técnicas que visam estimular comportamentos naturais e necessários para as espécies, o enriquecimento ambiental busca minimizar a monotonia do ambiente e os efeitos causados pelo estresse. Trazer imprevisibilidade e novidade para o ambiente por meio de mudanças no design einfraestrutura do recinto, introdução de novos objetos e odores, alteração de horário, apresentação e disposição da alimentação, são alguns bons exemplos destas técnicas.

Embora todos os tipos de enriquecimentos sejam indispensáveis, cada espécie ou grupo de animais, necessita que uma vertente seja mais explorada em função de suas peculiaridades. No caso dos felinos, por exemplo, como carnívoros, a aplicação de enriquecimentos alimentares que estimulem/mimetizem comportamentos como o de caça,são extremamente importantes.

Fig. 1. Dois indivíduos (gatos domésticos –Felissilvestriscatus) interagindo com um enriquecimento alimentar: pedaço de carne bovina (acém) suspenso por um cabo de aço. Foto: Juliana Damasceno.

 Além da preocupação com o tipo de técnica a ser enfatizada, deve-se analisar a quantidade de animais existentes no mesmo recinto. Independente de a espécie possuir hábito gregário ou não, quando em situação de alojamento é comum a reunião de mais de um individuo no mesmo local. Nesta situação geralmente é imposto aos animais uma condição social na qual devem se organizar para compartilhar os recursos existentes no ambiente em comum.

Com o objetivo de identificar este tipo de organização para acessar um recurso novo no ambiente, realizamos um estudo com uma colônia de gatos domésticos (Felis silvestres catus) introduzindo um item de enriquecimento ambiental alimentar. Sendo este item enriquecedor complementar a dieta dos animais, que eram alimentados com ração seca e água, ambos repostos uma vez ao dia e servidos à vontade (ad libitum).

Abrangendo a hipótese de que os animais possuíam uma organização para acessar o item novo no ambiente, foram envolvidas outras três questões.A primeira: a respeito da quantidade de itens, dispondo ora um ora três itens no ambiente (Fig. 1). A segunda:a respeito do horário de exposição do item, já que felinos possuem maior atividade nos períodos crepusculares (inicio da manhã e fim da tarde), desta forma foi oferecido o item enriquecedor ora no inicio da manhã (7:30) ora no inicio da tarde (13:30), período de menor atividade felina. Por fim a terceira questão: envolvendo (ou não) a presença da experimentadora (Fig. 2), uma pessoa conhecida pelos animais. Esta última questão possuiu o intuito de verificar se em meados do tempo de experimentação (após 60 min) a manipulação do item pela experimentadora favoreceria o aumento de interação com o enriquecimento.

O enriquecimento alimentar consistiu em um pedaço de 700gr de carne bovina (tipo acém) suspenso por um cabo de aço a 30 cm do solo (altura da cabeça do animal), conferindo mobilidade para o alimento além de um grau de dificuldade para consumi-lo. É importante destacar que o enriquecimento era oferecido de maneira igualitária para todos os animais, ou seja, o item enriquecedor foi suspenso pelo cabo de aço até o topo do recinto e disponibilizado para o acesso dos animais por fora do recinto por meio dos cabos.

Fig. 2. Experimentadora presente durante o ensaio. O procedimento envolvia a entrada da experimentadora no recinto na metade da duração do ensaio (aos 60 min), suspendia o item a 1,20 m do solo por 30 s, realocando-o na posição inicial. Foto: Juliana Damasceno.
Os resultados da pesquisa demonstraram haver uma organização clara dos animais para acessarem o item. Alguns animais interagiram dentro da média, alguns acima e outros abaixo da média total de interação da colônia. Pode-se observar por meio de uma correlação que os animais que acessavam mais rapidamente o item também eram aqueles que interagiam com mais frequência com o mesmo. Analisando a interação dos animais referente à quantidade de itens, constatou-se maior tempo e frequência de interação dos animais, além de menor índice de agressão, quando três itens estavam expostos.Fato este indicando que um número maior de itens proporciona maior aproveitamento do enriquecimento pelos animais.

Em relação ao horário, como o previsto por nossa hipótese inicial, os animais interagiram mais tempo no período da manhã, quando possuem o nível de atividade elevada. Este resultado leva a uma reflexão de horários preferenciais para exposição de técnicas de enriquecimento ambiental. No qual, os felinos interagem mais frequentemente com o enriquecimento se oferecidos nos períodos com elevada atividade, como os crepusculares.

No entanto, em relação à presença da experimentadora não houve alteração significativa na interação dos animais com o item. Fato este justificado pelo pouco tempo de permanência da experimentadora no ambiente (30 s).

Após a junção dos resultados obtidos (duração, frequência e latência de interação) e a categorização de cada indivíduo, foi desenvolvido um ranking dos animais da colônia, seguindo a ordenação para o acesso ao item.A partir destes resultados partimos para outra abordagem experimental na qual, os oito animais que interagiram acima da média da colônia foram retirados do ambiente para a execução de um novo experimento sem estes animais. Esta nova manobra possuía o objetivo de verificar o que ocorreria com a comunidade sem a presença dos animais que “monopolizavam” o item. Os resultados deste experimento demonstraram que sem os animais monopolizadores os indivíduos interagiram em maior frequência e duração ao comparar com o mesmo experimento realizado com a colônia completa. Além da participação de novos indivíduos que não haviam interagido anteriormente na presença dos oito animais.

Os resultados desta pesquisa elucidam algumas questões metodológicas na aplicação de técnicas de enriquecimento ambiental. Como ciência ainda recente, as práticas de enriquecimento ambiental ainda requerem estudos para refinamento metodológico. Em muitas instituições onde as técnicas são aplicadas a introdução das atividades beneficiam apenas alguns indivíduos do recinto, pela pouca quantidade de itens a serem oferecidos, por exemplo.

Alguns animais, da colônia estudada, os mais interativos monopolizavam o item enriquecedor, impedindo a participação dos demais. Em um ambiente restrito, como o cativeiro, inúmeros fatores causam estresse nos animais. Disponibilizar um recurso novo e atrativo neste ambiente, mas limitado para alguns animais pode agravar a situação estressante ao invés de trazer benefícios ao bem-estar destes indivíduos.

Pesquisas envolvendo adversidades metodológicas na aplicação de enriquecimentos ambientais são de fundamental relevância para aprimorar, e assegurar, a efetividade destas técnicas. Proporcionar bem-estar para as espécies cativas de maneira equilibrada, eficaz e científica é o melhor caminho para assegurar o nível elevado de saúde mental e física destes animais fadados ao confinamento.

*Pesquisa referida:Damasceno, J., Genaro, G., Dynamics of the access of captive domestic cats to a feed environmental enrichment item. Appl. Anim. Behav. Sci., 2014, v.151 p. 76-74.

Para acessar o artigo completo (em inglês), clique aqui.
Para acessar o resumo do artigo, clique aqui.



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