quarta-feira, 27 de junho de 2012

Utilização de glicocorticóides na medicina veterinária: benefícios versus riscos

14:51


Wilson Roberto Malfará1 & Gelson Genaro1 

1 Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto, SP


Os anti-inflamatórios esteroidais (AIES), também conhecidos como glicocorticoides, derivados do cortisol, esteroides ou simplesmente corticóides, assumem na atualidade uma das classes farmacológicas mais empregadas na Medicina Veterinária, e infelizmente mais “mal empregadas”.

Em 1946 o cortisol foi sintetizado, e em 1948, utilizado pelo primeira vez por Hench em paciente com artrite reumatoide. Logo a seguir os efeitos colaterais foram reconhecidos, os quais passaram a limitar a utilização terapêutica da classe. Na década de 50, as modificações na estrutura do cortisol resultaram em novos fármacos como a prednisona e a prednisolona, onde as subsequentes modificações estruturais dos esteroides sintéticos ampliaram a duração e a potência do efeito glicocorticoide, bem como propiciaram diferentes afinidades e tempo de ligação ao receptor glicocorticoide.

Os corticosteróides são hormônios lipídicos derivados do colesterol, fabricados endogenamente a partir das glândulas supra renais, ou adrenais, possuindo inúmeros efeitos benéficos atuando sobre o metabolismo e homeostasia. Seus representantes endógenos são a hidrocortisona e a cortiscoterona.


Os corticosteroides são classificados em: glicocorticoides, produzidos pela zona fasciculada da supra renal, os mineralocorticoides representados pela aldosterona, produzidos pela zona glomerulosa da supra renal, e os androgênios produzidos pela zona reticulosa. Todos participam ativamente no metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas, e os mineralocorticoides (aldosterona), regulam o equilíbrio hídrico e eletrolítico.

Como mecanismo de ação os corticosteroides assim como outros hormônios esteroides, interagem com proteínas receptoras intranucleares, específicas, de modo a regular a expressão dos genes responsivos aos corticosteroides, alterando os níveis e a disposição das proteínas sintetizadas pelos tecidos alvo. Em virtude da sua lipossolubilidade os corticosteroides são capazes de atravessar a membrana celular e se ligam aos receptores, localizados no interior do núcleo, distribuídos em todos os tecidos, modificando sua expressão gênica. Os gatos apresentam cerca de 50% menos receptores para glicocorticoides, quando comparados aos cães, o que implica em particularidades na terapia com tais fármacos nessa espécie.

Com relação á farmacocinética os glicocorticoides exógenos (fármacos) são rapidamente absorvidos pelo trato gastrintestinal, membrana mucosa e pele, estabelecendo ligação com uma proteína plasmática específica (CBG), uma globulina, e seu processo de biotransformação é hepático, onde a maioria dos compostos sofre inativação, excetuando-se a cortisona e a prednisona, que passam a se tornar ativas após a passagem pelo fígado. A eliminação ocorre principalmente pela urina e uma pequena parte com a bile pelas fezes.

Como efeitos farmacológicos propriamente ditos, os glicocorticoides endógenos representam classe de grandes benefícios, como por exemplo na atuação dos processos metabólicos proteicos, lipídicos e de carboidratos, ação anti-inflamatória e imunossupressora, alteração do “status” mental,  mantenedores da função muscular, aumento da secreção de ácido clorídrico, alterações na pele, alterações ósseas, hematológicas, dentre outros.

Dentro das aplicações clínicas na Medicina Veterinária, descreve-se: insuficiência da adrenal, doenças auto imunes, doenças alérgicas, doenças articulares, traumas e edemas cerebroespinhais, na oftalmologia, doenças gastrintestinais, doenças respiratórias, distúrbios musculoesqueléticos, transplantes de órgãos e em protocolos antineoplásicos. A aplicação clínica dos glicocorticoides é ampla, visto sua eficácia, e a mesma torna-se alvo para o emprego não racional, implicando em vários eventos adversos significativos.

Dentre os tais eventos, destacam-se:

  • Ação anti-inflamatória e imunossupressora, o que torna o animal mais propenso e vulnerável a infecções;
  • Ação hiperglicemiante, ou seja, predispõe o animal a diabetes mellitus;
  • Alteração na massa muscular, por interferir no metabolismo proteico e lipídico;
  • Diminui a síntese de colágeno, comprometendo a cicatrização, e tornando a pele mais delgada, aumentando a susceptibilidade a lesões por traumatismos;
  • Diminui a absorção de cálcio intestinal, incorrendo em osteopenia;
  • Promove aumento da sede, apetite e da quantidade de urina excretada;
  • Leva a letargia, fadiga e apatia;
  • Induz a cios irregulares e alterações na libido de machos e fêmeas;
  • Alopecia, pele fina com aumento da pigmentação, calcinose (depósito de cálcio em várias partes orgânicas);
  • Dependendo da classe, aumento da pressão arterial, pela atividade mineralocorticoide;
  • Promove alterações hematológicas e na bioquímica sérica;
  • Predispõe a catarata, glaucoma e atrofia de retina;
  • Pode levar a síndrome de Cushing.

Ressalta-se que, mesmo os glicocorticoides de uso tópico (pomadas, cremes, sprays) são amplamente absorvidos, incorrendo nos mesmos riscos adversos, ainda que em menor escala.

No contexto geral os AIES são empregados como anti-inflamatórios, pois possuem uma potência superior na maior parte das vezes, quando comparados com os anti-inflamatórios clássicos não esteroidais (AINES), agindo sobre dois seguimentos (ação sobre a fosfolipase A2 e COX2 (ciclooxigenase isoforma 2) na cascata de formação dos mediadores pró inflamatórios, onde as prostaglandinas assumem papel principal.  Além disso, agem de forma positiva no tratamento de doenças respiratórias, pois inibem a formação de leucotrienos (potentes agentes bronquiconstrictores), aumentando a sensibilidade de receptores beta 2 adrenérgicos, e diminuindo a sensibilidade de resposta dos receptores muscarínicos M3 à acetilcolina, produzindo um efeito broncodilatador extremamente satisfatório. Além destas, os AIES também inibem a liberação de histamina do mastócito, induzindo a um efeito anti alergênico clinicamente considerável. A figura 1  (abaixo) ilustra os principais locais de ação de um AIES.

Figura 1- Principais alvos farmacológicos dos AIES
Uma informação valiosa com relação a retirada do tratamento medicamentoso glicocorticoide, é que o mesmo deve ser efetuado de forma gradual, pois caso o desmame seja feito de maneira abrupta, há o risco do animal apresentar a supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, comprometendo seriamente a homeostase metabólica endógena (hipocorticosolismo). Dentre as contra indicações destacam-se: prenhez, gastrite e úlcera gástrica, diabetes mellitus, pancreatite, insuficiência cardíaca e renal, e doenças infecciosas.

Uma utilização interessante com relação aos glicocorticoides ocorre na terapêutica em aves silvestres, que possuem um modelo anatômico, e bioquímico, diferenciado, quando comparados às demais espécies. Dentre os AIES (anti-inflamatórios esteroidais): o principal, e mais utilizado na terapêutica em aves é a dexametasona, a qual apresenta ampla utilização na Clínica Médica Veterinária, como um todo, sendo trinta vezes mais potente, quando comparada a hidrocortisona, não possuindo efeito mineralocorticoide. As aves são muito sensíveis aos efeitos imunossupressores dos glicocorticoides, devendo ser aplicado com muita cautela e nunca por um tempo prolongado.


Devido a escassez de medicamentos com estudos de farmacocinética e farmacodinâmica destinados a serem empregados em animais de uma forma geral, e também nas aves silvestres, é muito comum fazer-se a extrapolação de doses utilizadas em humanos, e/ou mesmo utilizadas em outras espécies, resultando em consequências desastrosas pelo desconhecimento do(a) Médico(a) Veterinário(a), tanto ligado ao contexto da espécie que está sendo tratada, bem como quanto as informações farmacológicas específicas para a espécie em questão.

Frente ao exposto, o/a Médico(a) Veterinário(a) deve seguir algumas premissas, relacionadas ao uso de glicocorticoides na Medicina Veterinária, pois embora a efetividade seja uma realidade, deve-se sempre procurar espaçar os intervalos entre as administrações e diminuir a dose (ao máximo), principalmente em terapias prolongadas. 

O/A Médico(a) Veterinário(a), deve portanto, sempre analisar o benefício em detrimento aos riscos impostos pelos glicocorticóides utilizados, direcionando a terapia individualmente, acompanhando, e monitorando, os pacientes em terapias prolongadas, buscando informações sobre as características de cada espécie, assim como informações farmacológicas dos medicamentos empregados. Fica evidente, que desde que seguidas as exigências aqui citadas, o uso de glicocorticoides demonstra mais benefícios em ralação aos riscos, porém, exigindo cautela e conduta clínica, baseadas em evidências.

Figura 2 - Resumo sobre a utilização dos AIES na Medicina Veterinária

Written by

We are Creative Blogger Theme Wavers which provides user friendly, effective and easy to use themes. Each support has free and providing HD support screen casting.

1 comentários:

Anônimo disse...

Gostaria de parabenizar pelos conceitos aqui abordados, e a maneira como foram aqui colocados, muito válidos! obrigada! Raquel

 

© 2013 Espaço VetZoo. All rights resevered. Designed by Templateism

Back To Top