quarta-feira, 18 de abril de 2012

Bioética e Guarda Responsável de Animais de Companhia

09:54

Gelson Genaro1 e Marco Aurélio Guimarães2

1Gelson Genaro. Programa de Pós Graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP. - Site: http://www.gelsongenaro.com.br

2Marco Aurélio Guimarães. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Animais em grupo, no abrigo. Foto cedida pelo autor.
INTRODUÇÃO

Data do período Neolítico (8.000 a.C.) o surgimento da agricultura e da domesticação de animais por parte do ser humano. Inicialmente, a domesticação de animais visava o trabalho, e isto se propagou pela história até os dias atuais (DIAMOND, 2005), ocorrendo então a utilização dos mesmos para outros fins.

Nós, seres humanos, utilizamos os animais basicamente das seguintes formas: 1) para o trabalho; 2) para a produção de alimentos; 3) para a prática esportiva; 4) para estudo e experimentação científica; 5) para contemplação (em zoológicos ou livres) e; 5) como companhia.


Estas formas de utilização, apesar de históricas, não são isentas de questionamentos, em maior ou menor intensidade. As discussões sobre o assunto passam, também, por disputas acaloradas, com defesas de motivos pertinentes por diferentes partes, e que nem sempre podem ser consideradas simplesmente como ‘contra’ ou ‘a favor’ ao uso de animais, tamanha a dimensão do assunto, e suas diferentes nuances.

A fundamentação para diferentes posicionamentos vem, grande parte das vezes, de percepções distintas sobre os animais e sua utilização. Uma pessoa pode tornar-se vegetariana por não tolerar o paladar da carne, o que se trata de uma questão de preferência de alimentação. Entretanto, pode assumir a mesma conduta alimentar movida pelo fato de não perceber como correto, ou aceitável, que um animal tenha que morrer para que ela mesma alimente-se, argumento este que se fundamenta numa postura ética.

A ética trata da percepção que cada um de nós tem sobre o que é certo ou errado, e a capacidade de nos posicionarmos de forma coerente frente a situações de dilema entre emoção e razão (Segre e Cohen, 2002), ou seja, situações nas quais não há consenso sobre o que realmente é certo ou errado.

Os posicionamentos éticos não são imutáveis. Podem sofrer alterações ao longo do tempo, uma vez que estes sofrem interferência da moral, ou seja, da concepção de certo e errado da sociedade em que se vive. O que já foi considerado correto no passado pode não ser aceitável na atualidade. Ou, o que hoje pode ser visto como intolerável poderá no futuro, possivelmente, ser considerado inofensivo.

Contemporaneamente, quando se trata de um dilema ético relacionado a um aspecto médico-biológico, esta questão é abordada dentro da Bioética. Esta área do conhecimento tornou-se, nos dias atuais, um requisito necessário para a prática da pesquisa científica. Não basta somente obter resultados científicos válidos e de importância para a sociedade, mas também ter consciência de como o conhecimento poderá ser utilizado, para o bem ou para o mal, além de se considerar também a maneira como foi produzido.

Pesquisadores da área da biologia, e genética molecular, têm feito progressos científicos significativos, como por exemplo, o desenvolvimento de camundongos clonados e férteis, a partir de células adultas reprogramadas (IPS: induced pluripotent stem-cells), levando a um desenvolvimento do conhecimento que pode ter repercussões incomensuráveis, tanto na área da reprodução, como na terapêutica veterinária e humana (Callaway, 2011).

As IPS podem reproduzir qualquer tecido, sem a necessidade de utilizarmos óvulos (animais ou humanos) o que, a princípio, pode minimizar a discussão da clonagem, pois a sociedade, em sua maioria, parece refratária ao uso de óvulos para esse fim, já que para algumas religiões e crenças, a vida começa aí.

Entretanto o uso dessa estratégia poderá causar ainda mais discussão, pois produzir células IPS não é algo tão desafiador como usar óvulos para tal fim, e pesquisadores inescrupulosos poderão fazer uso dessa técnica para obter a clonagem humana, objetivo este tido como moralmente, e eticamente, inaceitável.

Contudo, a Bioética não deve ser resumida apenas à discussão de temas emergentes, ou cientificamente complexos, como o uso, ou não, das IPS. Assuntos do nosso dia-a-dia também convivem dentro deste saber. Mas porque fomos buscar tal nível de comparação?

BIOÉTICA E GUARDA RESPONSÁVEL
Animais em grupo, no abrigo. Foto cedida pelo autor.

Fixando-se na questão do uso de animais, tema aqui objetivado, podemos levantar novos exemplos de situações que merecem nossa reflexão. Por exemplo, o uso de drogas de alto custo, ou técnicas cirúrgicas, especificamente desenvolvidas para o uso na Clínica Médica Veterinária. Ou ainda, discutir o uso da ampla gama de alimentos (rações) desenvolvidos industrialmente para animais de companhia. Rações essas que podem ser indicadas para filhotes, que pelos mais diversos motivos foram separados de suas mães, e por isso necessitam de um alimento especialmente preparado.

De imediato, se esses produtos visam proporcionar melhor qualidade de vida aos animais, seu uso é, evidentemente, visto como correto (ou ético) - o “Bem Estar Animal” desenvolve-se atualmente, na Medicina Veterinária, como uma área (do conhecimento humano) específica. Mas, quais são os custos que a “natureza paga” pelo nosso comportamento (humano) de selecionar quais animais devem viver ou morrer? Não estaremos com isso selecionando, a longo prazo, animais (domésticos) cada vez mais frágeis e dependentes da tecnologia humana?

Muitos de nós, como proprietários, nem sequer cogita tratar o assunto por este prisma, pois levamos em conta tão somente nossa percepção (humana) da individualidade dos animais que nos “pertencem”. Tornamos nossos animais “membros da família”, e humanizamos seu tratamento a ponto de esquecermos sua natureza espécie-específica.

Por outro lado, enquanto pensamos em questões complexas como estas já mencionadas, resta um outro tipo de questão, mais básica e fundamental, porém não menos complicada de ser trabalhada, e com graves conseqüências na saúde pública.

Em recente estudo, Grisi-Filho et al (2008) demonstraram que a população de animais de estimação, da cidade de S. Paulo, é consideravelmente grande. Os números estimados foram de 1.490.500 cães, e 226.954 gatos, ou seja, existe uma “outra cidade de São Paulo”, em termos de população animal. Como gerenciar, com qualidade mínima respeitável, um população dessas proporções? É preciso lembrar que esta população de animais - de companhia - chega a tais números contra aproximadamente 10 milhões de pessoas. Isso só para citar a mais populosa cidade do nosso país. 

Ao mesmo tempo em que estes animais tornam-se nossos companheiros, domiciliados, é preciso lembrar que existe uma enorme parcela dessa população que perambula pelas ruas, sem alimento ou cuidados sanitários adequados, ou até mesmo mínimos para sua sobrevivência.

É surpreendente como nós, os responsáveis por toda esta situação, preocupamo-nos em discutir aspectos cientificamente complexos, tidos como éticos e moralmente elevados, sobre a utilização de animais. E, por outro lado, ignoramos o problema mais básico da posse (ou guarda) responsável. Isso é um reflexo do modismo científico que vivemos, onde assuntos sobre questões bioéticas emergentes, não menos importantes, são discutidas intensamente, acabando por minimizar as discussões sobre outros problemas persistentes e, também não menos importantes ?

Ao mesmo tempo em que a sociedade investe grandes quantias no desenvolvimento de vacinas, como a anti-rábica, animais são abandonados a própria sorte, sem nenhuma campanha de orientação para a população. Sendo que uma campanha preventiva sobre o abandono de animais custaria menos, e reduziria o número de doses necessárias para uma vacinação em massa (Genaro 2010; Machado & Genaro, 2010).

É preciso lembrar que animais abandonados, em algum momento de suas vidas, tiveram um proprietário (ou cuidador)! Logo, a melhor condução (possível) de situações problemáticas envolvendo estas populações animais é assunto pertinente à nossa classe profissional, ou seja, é assunto de nossa responsabilidade. Não podemos, de modo algum, nos abster dessa realidade.

A discussão sobre este assunto (bioético), aqui iniciada é parte de algo muito mais amplo, envolve basicamente a maneira como encaramos a vida, quer seja de um ser de nossa espécie, ou de um cão, ou gato, sem proprietário. Portanto merece uma reflexão a maneira como conduzimos todas essas decisões. O que realmente desejamos para nossa espécie, e para as outras espécies que nos acompanham? Como devemos conduzir nossa relação com a vida nas suas mais diferentes manifestações?

CONCLUSÕES

Seja da maneira que for que utilizamos animais, podemos (e devemos) manter uma postura pautada por uma conduta ética. Nutrir-se de um animal é uma condição (exceto numa postura consciente e voluntária) natural para nossa espécie, e a maneira como conduzimos tal relação merece reflexão.

Atender as necessidades básicas destes animais, quando criados para abate (ou para pesquisa, companhia, etc.) é estritamente necessário. Todas as condutas humanas aqui destacadas merecem essa - objetivada e cuidadosa - reflexão. E, as questões bioéticas mais básicas que se referem à posse (ou guarda) responsável de animais de companhia não podem ser negligenciadas. Apenas dessa maneira poderemos realmente fazer uma opção consciente, responsável e ética para o cuidado com estes animais, que escolhemos como companheiros, como nossos parceiros no caminhar pela vida.

REFERÊNCIAS

Callaway, E. Could stem cells rescue an endangered species? Nature. doi:10.1038/news.2011.517. Nature Publishing Group, 2011. Disponível em: <http://www.nature.com/news/2011/110904/full/news.2011.517.html> Acesso em: 15 abr. 2011.

Diamond J. Armas, Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas. 8 ed. Editora Record: Rio de Janeiro, 2006. 472 p.

Genaro G. Gato doméstico: futuro desafio para controle da raiva em áreas urbanas? Pesq. Vet. Bras., v. 30, n. 2, p. 186-189, fevereiro 2010.

Grisi-Filho J.H.H., Amaku M., Dias R.A., Netto H.M., Paranhos N.T., Campos M.C.N., Neto M.J.S.F., Ferreira F.. Uso de sistemas de informação geográfica em campanhas de vacinação contra a raiva. Rev. Saú. Púb. v. 42, n. 6, p. 1005-11, 2008.

Machado JC & Genaro G. Comportamento exploratório em gatos domésticos (Felis silvestris catus Linnaeus, 1758): uma revisão. Arc. Vet. Sci. v. 15, n. 2, p. 107-117, 2010.


Segre M. & Cohen C. Bioética 3. Ed. EDUSP: São Paulo, 2002.

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