quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Criar animais sem sofrimento é tendência de mercado consumidor

09:03


Em uma fazenda em Taiaçu, a cerca de 400 quilômetros de São Paulo, quando a porteira do curral se abre, os bezerros entram em disparada. Quem não consegue encontrar o caminho, recebe a ajuda de uma das trabalhadoras da fazenda. Priscila Aparecida e Jucilene da Silva conhecem os mimos de cada animal e explicam que alguns bezerros gostam que elas passem a escova enquanto eles se alimentam, outros não.

Escovar os animais na hora da mamada tem um sentido. A zootecnista Lívia Magalhães, responsável pelas mudanças no manejo da fazenda, explica. “Estudos anteriores, com leitões e camundongos, mostraram que esses filhotes, quando foram escovados, tiveram um desenvolvimento cerebral melhor e consequentemente deram melhor resposta no desenvolvimento, inclusive na resposta imunológica”.

As mudanças são pequenas, mas cheias de efeitos. Uma delas foi na dieta dos bezerros, que hoje passam por uma desmama progressiva. No manejo convencional, de uma hora para outra, os filhotes param de mamar diretamente nas vacas, para não atrapalhar a produção de leite da fazenda. Mas começar a receber ração drasticamente gera um trauma nos animais.

Os bovinos gostam de ficar em grupo e com bastante espaço evita-se um dos maiores problemas da criação coletiva de bezerros: assim que acabam de mamar, eles ainda sentem vontade de sugar. Confinados, acabam fazendo isso no umbigo, na orelha ou mesmo no teto do outro, o que pode provocar doenças, como mastite na futura novilha.



Como eles estão no processo de desmama progressiva, fica à disposição dos animais um cocho com ração. A água só é fornecida duas horas depois da mamada para não prejudicar o processo digestivo.

Outra mudança foi no chão do galpão, que antes era coberto com serragem e por isso havia muita poeira. Os veterinários observaram vários casos de doenças respiratórias nos bezerros. Hoje, ele é forrado com cinco centímetros de capim seco. As fezes são retiradas todos os dias, mas o capim só é trocado totalmente duas vezes por semana.

Cinco anos depois, de acordo com o levantamento dos pesquisadores, a mortalidade na Fazenda Germânia caiu de seis bezerros por mês para dois por mês. O gasto com antibióticos foi reduzido pela metade.

Além das práticas de bem-estar, a fazenda melhorou as instalações, a genética e o manejo alimentar do rebanho. O dono da fazenda, Maurício Vital, pecuarista há mais de 20 anos, faz um balanço do projeto. “A nossa produção de leite tem aumentado. Nós saímos de 3.500 litros por dia e chegamos a quase 5 mil litros por dia nesse sistema”, avalia.

Para Maurício, essas conquistas da fazenda não se medem apenas em números. “Ninguém gosta de ser tratado mal. Todo mundo gosta de ser tratado bem. A partir do momento que alguém te trata bem, você se sente obrigado a tratá-lo bem também e isso acontece muito com os animais”.

O zootecnista Mateus Paranhos, considerado um dos principais estudiosos em bem-estar animal no Brasil, trabalha na fazenda experimental da Unesp, Universidade Estadual Paulista, em Jaboticabal, São Paulo. Ele orienta um grupo de estudos e pesquisas em etologia, a ciência do comportamento animal, chamado Etco.

Os alunos do curso de zootecnia, que fazem parte do grupo, ajudam no manejo dos animais. Em vez da vara que cutuca os animais, ou mesmo o chicote, eles usam bandeiras. “As bandeiras têm o propósito de orientar os animais e também nos dá segurança, porque é um prolongamento do nosso braço. Para quem trabalha na área externa do curral, é bom porque conseguimos nos aproximar sem nos expor a um coice ou movimento brusco”.

O professor mostra ainda o que ele chama de curral ideal: eficiente e feito com materiais mais baratos.

Os efeitos do estresse na carne estão sendo estudados na Universidade de Campinas, a Unicamp. O trabalho é coordenado pelo veterinário e pesquisador Pedro Eduardo de Felício. “O animal que estressa no curral, no embarque, que é cutucado com choque elétrico, grito, ele descarrega adrenalina e gasta parte da reserva energética da musculatura. A carne de um animal estressado estraga mais rápido porque ela não tem a acidez necessária para conservar”, diz.

O professor Felício explica que não conhece nenhum estudo que comprova se a carne de um animal estressado pode fazer mal para quem come, mas se preocupar com o bem-estar dos animais é vantajoso para toda a cadeia produtiva. “O Brasil é o maior exportador e tem as maiores empresas frigoríficas do mundo. Nós precisamos cuidar desse aspecto, porque isso pesa muito no mercado internacional”.

Fonte: G1

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